Meu irmão, mais novo, está namorando sério há um ano. A cunhada é muito simpática, toda meiga, prendada, pinta, borda, faz crochet, doceira de mão cheia, vai fazer vestibular pra medicina esse ano. Minha bisavó gostou bastante dela, e logicamente meus pais também gostam bastante. No Sábado de Aleluia, meu irmão passou a tarde inteira fazendo as “pegadas do coelhinho” com farinha pela casa toda, para que a digníssima procurasse seus ovos de Páscoa. Achei isso lindo. Inclusive, acho lindo tudo que meu irmão sempre fez por ela; no fundo sempre quis alguém que fizesse todo esse tipo de coisa por mim; mais no fundo ainda, lá nas entranhas do meu subconsciente, sempre me achei um fracasso por nunca ter tido alguém que fizesse esse tipo de coisa por mim.
Só nesse feriado, vendo tudo isso, eu percebi a diferença entre o estilo de vida provinciano que eu deixei pra trás e o estilo de vida “idiossincrático” que eu tenho agora, e entendi por que o interior me dá agonia e por que eu me sinto tão melhor aqui.
Meu irmão se apaixonou pela namorada porque ela é a idéia que ele tem de perfeição. Uma idéia que ele herdou dos meus pais, que herdaram dos pais deles. Eu sempre quis que alguém fizesse essas coisas por mim porque essa é a idéia que eu sempre tive de demonstração de amor, herdada dos mesmos pais, que herdaram dos mesmos pais deles. É por essas mesmas idéias herdadas que minha bisa aprovou a moça, e é por essas idéias herdadas também que meu irmão foi chutado pela ex-namorada, muito mais livre, desbocada e ela-mesma.
Estou dizendo que ela não é melhor que eu por ser prendada, nem que aquele que faz surpresas românticas ama mais do que aquele que arranja um tempo no que está fazendo para ir te ver rapidinho e ainda te leva aonde você estava planejando ir para você não ter que ir sozinha na chuva, ou do que aquele que te apóia nas suas decisões pessoais.
Se eu tivesse um namorado que fizesse as patinhas do coelhinho pra me surpreender, a bisavó dele não gostaria de mim e me acharia saidinha demais. Isso porque eu moro sozinha, trabalho fora, sou tatuada, e os trabalhos manuais que me agradam não são exatamente bordado, tricot e crochet.
Daí a pergunta: por que caralhos eu acredito no que foi imposto a mim inconscientemente pelas gerações passadas? O conceito de “boa moça” só está em vigor nas cabeças dos seus avós, tios-avós e pais mais velhos, se você for o “indês” (não sei escrever isso) da sua geração. Na realidade da qual hoje eu faço parte, mulher boazinha fica pra trás. Mulher boazinha não tem carreira, nem credibilidade, nem a suposta “realização pessoal”. Na realidade da qual hoje eu faço parte, sair sozinha não é mal-visto, levar quem você bem entender pro seu apartamento não é errado, fazer o que você considera melhor não é desobediência e rebeldia, mas sim maturidade e independência.
Morar sozinha na capital contribuiu muito para a descoberta de quem eu realmente sou e o que eu realmente quero. Eu continuaria me sentindo deslocada na província, ao menos no círculo social do qual minha família faz parte, e nunca saberia bem por quê. A cada dia eu me entendo mais, especialmente quando comparo as situações aqui e lá, como fiz agora. Nesse fim de semana eu entendi que eu não sou “boa moça” como minha cunhada, portanto não me serve um “bom moço” como meu irmão. Atrasaria minha vida. (Isso não significa que estou disposta a ser mulher de bandido, ok? Sem extremos.)
Ainda vou levar um tempo pra tirar da cabeça essas idéias herdadas, afinal, são gerações e gerações que passaram por essa. Tenho muitos medos bobos (agora entendo) relacionados a não alcançar esses padrões familiares. Aceitar que não preciso seguir esses padrões é o primeiro passo para me livrar dos medos bobos, o que por sua vez é o primeiro passo para chegar a meus objetivos.
E ah, antes que perguntem, eu não sei e nem quero saber que tipo exatamente de moço me serve, só sei do que não me serve.