Estava discutindo questões profissionais com o Garoto Prodígio semana passada, e a pauta da discussão era “escravidão bem-remunerada x artista que morre de fome“.
Ou seja, será que devemos correr atrás do que realmente adoramos, sabemos e queremos fazer, mesmo que a curto prazo a remuneração seja menor, ou devemos abraçar qualquer oportunidade de dinheiro bom e dinheiro fácil, mesmo que isso vá contra nossos princípios?
A primeira vez que me vi frente a esse dilema foi há uns dois meses, quando me ofereceram um emprego que pagaria o dobro do que eu ganho agora. Isso para trabalhar no call center de uma grande empresa. É, call center. Estarei ganhando mais para estar trabalhando num call center.
O lugar onde eu trabalho agora não é dos mais ricos ou luxuosos, nem pretendo construir carreira aqui, mas gosto do trabalho que eu faço, que é de certa forma ligado à minha área, e acho que ganho mais que bem para a minha faixa etária e formação acadêmica (a maioria dos meus amigos na faixa dos 20 ganha menos de 1/3 disso, quando trabalha). Sem contar a mamata que uma empresa pequena propicia, e por mamata eu me refiro a não precisar fazer hora extra e a não precisar tomar Maracujina em doses diárias para sobreviver, motivos pelos quais eu saí do meu emprego anterior, também numa mega-empresa.
Não aceitei a proposta do call center por motivos óbvios. Prefiro ganhar menos fazendo algo que não me desagrada e que me dá alguma experiência na área que pretendo seguir, do que ganhar mais e ter de sobreviver à base de Maracujina num trabalho puramente chato.
Isso porque eu tenho 19 anos, sou undergraduate (malemal formada) e moro sozinha com apoio dos pais. Uma situação bem diferente da do Garoto Prodígio, que tem 34 anos e uma família pra sustentar (de “garoto” não tem nada, o apelido faz referência ao xará dele na Dupla Dinâmica).
Ele se botou claramente a favor da primeira opção (escravidão bem-remunerada) como suporte para a segunda (artista que morre de fome), ao invés de uma excluir a outra. O exemplo dado foi a necessidade de se abrir uma empresa para emitir nota fiscal de tradutor. Todo mundo sabe que abrir uma empresa no Brasil é um processo demorado e caro, bem como é caro manter uma empresa. O argumento dele foi que, muitas vezes, principalmente no começo, eu não conseguiria ter lucro só com as traduções, e precisaria de um emprego paralelo para manter o negócio de traduções. O que faz muito sentido, mas repito, é uma situação diferente da minha.
Claro que quero ganhar bem, todo mundo quer. Mas não numa base maquiavélica, não na base do “os fins justificam os meios”. O trabalho é uma parte importante para a sanidade mental do ser humano, e deve ser uma atividade que, se não for agradável, pelo menos não dê fastídio. Tem que ter um balanço aí dos fatores “remuneração” e “satisfação pessoal”.
Se lixeiro ganhasse R$2.200 mais benefícios por mês, os candidatos a tal vaga jamais seriam universitários ou recém-formados, nem mesmo estagiários de engenharia ambiental especializados em descarte de resíduos sólidos.